Aos que se propõem a se relacionar com este material...

 

 

Q ue busquem o transparente, o oculto, o aparente, o branco do papel, as linhas não escritas, as linhas invisíveis, as conexões, a paciência, o incógnito, o clique del ratón, os sinais, a desordem...

 

 

 

Bons  Encontros !



ENTRE_LINHAS_E_PARÊNTESES

 

 

No início de 2005, pesquisando o programa de pós-graduação em Educação da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC, descobri que estaria sendo oferecido uma disciplina intitulada S.E. Estudos Tópicos em Deleuze e Guatari. Me interessei imediatamente por cursá-la. O motivo principal foi o de poder estudar mais intensa e coletivamente dois autores, aos quais conhecia apenas por seu conceito de rizoma aplicado à estrutura do conhecimento.

Meu primeiro encontro com aquela palavra, no ano de 2002, não foi diretamente a partir de seus autores mas através dos textos: A transversalidade para além da interdisciplinaridade de Sílvio Gallo[1] e Ensinando a turma toda – as diferenças na escola. de Maria Teresa Eglér Mantoan[2].

            Na época, eu vinha trabalhando por três anos como coordenador de núcleos de Educação de Jovens e Adultos, inicialmente no Rio Tavares e posteriormente na Bacia da Lagoa da Conceição, localidades de Florianópolis, Santa Catarina. O conceito, completamente pertinente à prática educativa em implantação, foi imediatamente por mim explicitado em textos produzidos. Juntamente com o rizoma, a noção de currículo emergente proposta por Malaguzzi na região de Reggio Emilio ao norte da Itália[3] compunham um esboço teórico metodológico da Educação que praticava e procurava sistematizar.

            A oportunidade veio portanto em excelente momento por dois motivos principais. O primeiro porque colaboraria para fundamentar a prática de seis anos com mais argumentações filosóficas sobre o construir currículos. O segundo foi e ainda é de produzir, construirbons encontros” (palavras do cotidiano do prof. Norberto), acontecimentos e intercessores de forma a poder expor, debater, incentivar a curiosidade pela prática do núcleo de Educação de Jovens e Adultos do núcleo Tapera ao qual coordeno em 2005.

            Percebo, hoje, que fui muito mais longe, com muito mais velocidade, com atributos bem diversos do que poderia imaginar a prior. Fui em pensamentos, em encontros com pessoas e coisas, em discurso, em potência, em movimentos incontroláveis e imprevisíveis a prior. Um antes, um depois, links de fuga, textos construídos e reconstruídos, textos incompletos, textos-projeto, pinçamentos múltiplos... Um pouco de tudo isto é o que compõe este trabalho que, apresentado numa forma pouco convencional, não deixou de ser, sempre, uma divertida travessia por desafios.

Agradecendo a tudo e a todos, convido, aos que se propuserem a se relacionar com este material, que busquem o transparente, o oculto, o aparente, o branco do papel, as linhas não escritas, as linhas invisíveis, as conexões, a paciência, o incógnito, o clique del ratón, os sinais, a desordem...

 

Bons encontros! Boas viagens!

 

 

José Manoel Cruz Pereira Nunes

Julho de 2005

Florianópolis


 

Text Box: Um antes

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Text Box: Currículo emergente
 

 


                                                                      

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Text Box: Pontos de vista
Text Box: realidade
Text Box: Mille Plateaux
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Text Box: aprenderText Box: Lógica do sentidoText Box: problemáticoO

 

Text Box: Idéia noção
Text Box: currículo
Text Box: Paradoxo
Text Box: Conversações
 

 

 


Text Box: Um depois

Text Box: agenciamento
Text Box: estilo
 


                

Text Box: Plano de imanência
 


                 

Text Box: Modos de existência
Text Box: Rizoma Text Box:  DELEUZE
 


                                  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



TEXTOS COMPOSTOS E RECOMPOSTOS NO INTERMEZZO

 

 

CURRÍCULO EMERGENTE E RIZOMÁTICO

Não se trata de buscar a integração dos saberes. Importa fazer rizoma. Viabilizar conexões e conexões; conexões sempre novas. Fazer rizoma com os alunos, vi­abilizar rizomas entre os alunos, fazer rizomas com proje­tos de outros professores. Manter os projetos abertos: "um rizoma não começa nem conclui, ele se encontra sempre no meio, entre as coisas, inter-ser, intermezzo." (DELEUZE, e GUATTARI, Félix. Mil Platôs 1. São Paulo: Ed. 34, 1995, p. 37.)”

EXEMPLOS DE ALGUNS CURRÍCULOS EMERGENTES EM 2005

 

 

EDUCAÇÃO DE QUALIDADE, COMO ASSIM?

Conceito, acontecimento, multiplicidade e agenciamentos. Que discurso é este de educação de qualidade?

 

 

ALICE E MAIS ALGUÉM NO MUNDO DAS MARAVILHAS

Lógica do sentido, Lewis Carrol, meu trabalho, meu mundo, paradoxos...

 

 

AÇÃO E REAÇÃO EM SALA DE AULA

O que o professor entende por sua ação e reação na sua sala de aula. Um ensaio completamente inacabado.

 

 

ESTRATÉGIAS DE IMPLANTAÇÃO E ASSESSORAMENTO DO TRABALHO COM PESQUISA EM NÚCLEOS DE EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS – um esboço preliminar, parcial e provisório

 

 

APRENDIZAGEM NOS PROJETOS DE PESQUISA

Nunca se sabe de antemão como alguém vai aprender­ – que amores tornam alguém bom em Latim, por meio de que encontros se é filósofo, em que dicionários se aprende a pensar.” (DELEUZE, . Diferença e Repetição, Rio de Janeiro: Graal, 1998. p. 270)

 

 

ARMÁRIO DE ROUPAS

O conhecimento e o armário de roupas com suas prateleiras, cabides e gavetas.

 

 

PESQUISANDO A PESQUISA COMO PRINCÍPIO EDUCATIVO

Como fazer uma pesquisa para os outros sobre o nosso próprio trabalho tendo-se em mente que “... impôs-se assim um campo de pesquisa cuja aposta, em toda a diversidade de seus procedimentos, é simplesmente a de libertar a razão do triângulo mágico Crítica - Positivismo lógico - Feno­menologia transcendental.” (Alliez, Eric. Da Impossibilidade da Fenomelogia: sobre a filosofia francesa. São Paulo: Ed. 34, 1996, p. 32-33.)?
TEXTO PARA UM INTERMEZZO POSTERIOR: uma proposta

 

O problemático em Deleuze e a problematização em Paulo Freire: intercessões, paralelos e interseções.

 

            “O modo do acontecimento é o problemático. Não se deve dizer queacontecimentos problemáticos, mas que os acontecimentos concernem exclusivamente aos problemas e definem suas condições. ... O acontecimento por si mesmo é problemático e problematizante.” (Deleuze, . Lógica do sentido. São Paulo: Perspectiva, 4ª ed. 2003. p. 57)

 

Será possível pensar junto esta dupla de militantes? Serão encontros ou desencontros? Tratam sobre os mesmos conceitos? Se poderia fundamentar filosoficamente a prática da liberdade, da conscientização de Paulo Freire a partir das propostas de Gilles Deleuze e Félix Guattari?

 

Procurar indícios, investigar possíveis cruzamentos nas obras destes grandes educadores construtivistas, empiristas, críticos é algo que me fascina e que, tenho certeza, poderá trazer possibilidades de potencializar a nossa atuação desterritorializante, política e de valor coletivo, características desta Educação Menor, rizomática e libertária.


LINKS DE FUGA INTERNÉTICAS

 

Charles J. Stivale -- A-F Summary of L'Abecedaire de Gilles Deleuze

 

Colóquio O Devir do Mestre - Entre Deleuze e a Educação

 

Congrès international Marx III section écologie

 

Deleuze & Guattari on the Web

 

Deleuze e o Impulso Alegórico

 

Deleuze bibliografia

 

Editora 34

           

            Educação On-Line - Saberes, Transversalidade e Poderes

                       

            Educacaoonline.pro.br-saberes_transversidades.asp   

           

            Mapeando a [complexa] produção teórica educacional

           

            Filosofia da Diferença

           

            Kinds of Thinking, Styles of Reasoning - Peters.pdf

           

            TRANSVERSALIDADE E MEIO AMBIENTE - palestra.pdf

           

            FONDS DOCUMENTAIRE GILLES DELEUZE - Deleuze A2.pdf

           

            Growing Rhizomes and Collapsing Walls: Postmodern Paradigms for Design Education

 

            O Computador na Escola

           

            Links para textos de Deleuze

 

            Lyotard

 

            Morre Felix Guattari, filósofo e psicanalista francês. - Estadao.com.br

 

Text Box: Conectando ao depois            Novos Paradigmas do Conhecimento

 

            O Espaço-tempo Curvo da Relatividade Geral

 

            Signe, temps et conscience Gilles Deleuze et António Damásio

 

            Sumário da revista Educação & Realidade vol. 272 da UFGRS

 

            The Postmodern Condition by Jean-Francois Lyotard. 1979

           

Web Deleuze  Presentation

PINÇANDO INTERCESSÕES

 

      Foram extraídas passagens de vários textos de diversos autores, em vários livros. Permeio algumas observações e grifos que no entanto são a mínima parte deste material. A importância dos mesmos está ao que se incorporou em minhas produções textuais anexadas em outras seções assim como às inúmeras conexões e linhas de fuga criadas neste movimento.

        

Uma sugestão de utilização para o leitor deste material seria a busca de suas necessidades através do comando de “localizarque usualmente pode ser ativado com a tecla de atalho: “ctrl + L”. Uma palavra como por exemplorizoma’ será  encontrada mais facilmente. De modo algum se sugere a leitura linear e / ou desinteressada. Há necessidade de querer buscar algo.

 

Uma possibilidade aleatória seria com o comando “ctrl + Y” e buscando pelo número da página, por indicador etc. Pelo indicador aparecerão várias palavras chaves que podem conectar o seu interesse à construção de seu próprio rizoma.

        

De maneira alguma procurei trazer linearidade e concisão a este material. O texto impresso esconde possibilidades e conexões múltiplas. Sugiro, para potencializar ao extremo os recursos deste texto, que o leitor se utilize do software Winword 97 e que esteja conectado à internet.

        

         Uma introdução, um desenvolvimento, uma conclusão, sumário e bibliografia para este esforço são deixados à opção e à descoberta no inesperado das partes e no impossível do todo.


Oitava Série: Da estrutura

(Deleuze, Gilles. Lógica do sentido. São Paulo: Perspectiva, 4ª ed. 2003.)

 

Pg. 51

“Dadas duas séries, uma significante e outra significada, uma apresenta um excesso e a outra uma falta, pelos quais se relacionam uma a outra em eterno desequilíbrio, em perpétuo deslocamento.

[...] O significado em geral, porém, é da ordem do conhecido;

[...] A série significante organiza uma totalidade preliminar, enquanto que a significada ordena totalidades produzidas. “O Universo significou bem antes de termos começado a saber o que ele significava...”

 

Pg. 52

Eis por que a lei pesa com todo o seu peso antes mesmo que saibamos qual é o seu objeto e em que se possa jamais sabê-lo exatamente. É este desequilíbrio que torna as revoluções possíveis; não que as revoluções sejam determinadas pelo progresso técnico, mas elas se tornam possíveis por este abismo entre as duas séries, que exige reorganizações da totalidade econômica e política em função dos avanços do progresso técnico. Há, por conseguinte, dois erros. O mesmo, na realidade: o do reformismo ou da tecnocracia, que pretende promover ou impor organizações parciais das relações sociais em função do conhecido em função do ritmo das aquisições técnicas; o do totalitarismo, que pretende constituir uma totalização do significável e do conhecido em função do ritmo da totalidade social existente em tal momento. É por isso que o tecnocrata é o amigo natural do ditador, computadores e ditadura. O revolucionário, porém, vive na distância que separa o progresso técnico e a totalidade social, inscrevendo seu sonho de revolução permanente. Ora, este sonho é ele próprio ação, realidade, ameaça efetiva sobre toda a ordem estabelecida e torna possível aquilo com que ele sonha.”

[...] Voltemos ao paradoxo de Lévi-Strauss: dadas duas séries, significante e significada, há um excesso natural da série significante, uma carência natural da série significada.

[...] Treco [...] mana [...] cuja única função é de preencher uma distância entre o significante e o significado.”

 

Pg. 53

“ É preciso compreender, ao mesmo tempo, que duas séries estão marcadas uma por excesso outra por falta e que as duas determinações se trocam sem nunca se equilibrar.

[...] A estas relações, ou antes, aos valores destas relações, correspondem acontecimentos muito particulares, isto é, singularidades designáveis na estrutura: exatamente como no cálculo diferencial, onde repartições de pontos singulares correspondem aos valores das relações diferenciais². Por exemplo, as relações diferenciais entre fonemas designam singularidades em uma língua, na “vizinhança” das quais se constituem as sonoridades e significações características da língua. Mais ainda, observa-se que singularidades atinentes a uma série determinam de uma maneira complexa os termos da outra série.

As duas séries heterogêneas convergem para um elemento paradoxal, que é como o seu “diferenciante”. Ele é o  princípio de emissão das singularidades. Este elemento não pertence a nenhuma série, ou antes, pertence a ambas ao mesmo tempo e não pára de circular através delas.

 

Pg.54

Ele aparece em uma série como um excesso, mas coma  condição de aparecer ao mesmo tempo na outra como vazia; e se é falta na outra é a título de peão supranumerário ou de ocupante sem casa. Ele é ao mesmo tempo palavra e objeto: palavra esotérica, objeto exotérico.

[...] Pois o sentido não se confunde com a significação mesma, mas ele é o que se atribui de maneira a determinar o significante como tal e o significado como tal. Concluímos que nãoestrutura sem séries, sem relações entre termos de cada série, sem pontos singulares correspondendo a estas relações; mas, sobretudo, nãoestrutura sem casa vazia, que faz tudo funcionar.

 

Nona  série: Do problemático

 

Pg.55

“ A singularidade faz parte de uma outra dimensão, diferente das dimensões da designação, da manifestação ou da significação. A singularidade é essencialmente pré-individual, não pessoal, aconceitual.

[...] Ela é neutra.”

 

Pg. 56

“ Se as singularidades são verdadeiros acontecimentos, elas se comunicam em um e mesmo Acontecimento que não cessa de redistribuí-las e suas transformações formam uma história.

[...] Os acontecimentos são ideais. Novalis chega a dizer que há duas ordens de acontecimentos: uns ideais, os outros reais e imperfeitos, por exemplo o protestantismo ideal e o luteranismo real³. Mas a distinção não é entre duas espécies de acontecimentos, mas entre o acontecimento, por natureza ideal e sua efetuação espaço-temporal em um estado de coisas. Entre o acontecimento e o acidente. Os acontecimentos são singularidades ideais que comunicam em um e mesmo Acontecimento; assim possuem uma verdade eterna e seu tempo não é nunca o presente que os efetua e os faz existir, mas o Aion ilimitado, o Infinito em que eles subsistem e insistem. Os acontecimentos são as únicas idealidades; e reverter o platonismo é, em primeiro lugar, destituir as essências para substituí-las pelos acontecimentos como jatos de singularidades. Uma dupla luta tem por objeto impedir toda confusão dogmática do acontecimento com a essência, mas também toda confusão empirista do acontecimento com o acidente.”

 

Pg. 57

“ O modo do acontecimento é o problemático. Não se deve dizer queacontecimentos problemáticos, mas que os acontecimentos concernem exclusivamente aos problemas e definem suas condições.

[...] O acontecimento por si mesmo é problemático e problematizante.

[...] Parece, pois, que um problema tem sempre a solução que merece segundo as condições que o determinam enquanto problema; e, com efeito, as singularidades presidem à gênese das soluções da equação.

[...] Problemático qualifica sempre as objetividades ideais. Kant foi, sem dúvida, o primeiro a fazer do problemático não uma incerteza passageira, mas o objeto próprio da Idéia e com isto também um horizonte indispensável a tudo o que acontece ou aparece.”

 

Pg. 58

Não se trata de quantificar nem de medir as propriedades humanas, mas, de um lado, de problematizar os acontecimentos humanos e, de outro, de desenvolver como acontecimentos humanos as condições de um problema.”

 

Pg. 59

Não se pode falar dos acontecimentos a não ser nos problemas cujas condições determinam. Não se pode falar dos acontecimentos senão como de singularidades que se desenrolam em um campo problemático e na vizinhança das quais se organizam as soluções [...] Mas, se as repartições de singularidades que correspondem a cada série formam campos de problema, como caracterizaremos o elemento paradoxal que percorre as séries, faz com que elas ressoem, se comuniquem e se ramifiquem e que comanda a todas retomadas e transformações, a todas as retribuições? Este elemento deve ele próprio ser definido como o lugar de uma pergunta. O problema é determinado pelos pontos singulares que correspondem às séries, mas a pergunta, por um ponto aleatório que corresponde à casa vazia ou ao elemento móvel. [...] A pergunta se desenvolve em problemas e os problemas se envolvem em uma pergunta fundamental. E assim como as soluções não suprimem os problemas, mas encontram, ao contrário, as condições subsistentes sem as quais elas não teriam nenhum sentido, as respostas não suprimem de forma nenhuma a pergunta, nem a satisfazem e ela persiste através de todas as respostas.”

 


Proust e os Signos. Gilles Deleuze. 1964. Forense Universitária. 2003. 2ª ed.

 

CAPÍTULO I – Os Tipos de Signos

 

La Recherche du temps perdu é voltada para o futuro e não para o passado (p.4)

 

Pg. 4

“ A obra de Proust é baseada não na exposição da memória, mas no aprendizado dos signos.”

Tudo que nos ensina alguma coisa emite signos, todo ato de aprender é uma interpretação de signos ou de hieróglifos.” (ir para pg. 40)

 

Pg. 5

“ A unidade de todos os mundos está em que eles formam sistemas de signos... não se aprende nada, se não por decifração e interpretação (dos signos). Mas a pluralidade dos mundos consiste no fato de que estes signos não são do mesmo tipo, não aparecem da mesma maneira, não podem ser decifrados do mesmo modo, não mantêm com o seu sentido uma relação idêntica.” Quatro tipos de signos.

 

Signos ao mesmo tempo unidade e pluralidade em a Recherche.

 

Mundanidadesignos que se diferenciam, em um mesmo momento, segundo classes e “famílias espirituais”.

 

Pg. 6

Signo mundano não remete a coisa alguma, significação transcendente ou conteúdo ideal...

            Não se pensa, não se age, mas emite-se signos.

            Eles são vazios... a todo instante alteração e mudança (pg. 17)

“ O aprendizado seria imperfeito e até mesmo impossível se não passasse por eles.”

 

Pg. 7

Amor

Amar é procurar explicar, desenvolver esses mundos desconhecidos que permanecem envolvidos no amado. É por essa razão que é tão comum nos apaixonarmos por mulheres que não são do nosso mundo nem do nosso tipo. Há, portanto, uma contradição no amor. Não podemos interpretar os signos de um ser amado sem desembocar em mundos que se formaram sem nós, que se formaram com outras pessoas, onde não somos, de início, senão um objeto como os outros.

 

Pg. 8

Primeira lei

... subjetivamente o ciúme é mais profundo do que o amor, ele contém o verdadeiro amor.

 

Pg. 9

Signos amorosos são mentirosos. ...suscitam... o sofrimento de um aprofundamento.


Pg. 10

Objetivamente amores intersexuais são menos profundos que a homossexualidade.

Segredo da amada é segredo de Gomorra. Segredo do amante segredo de Sodoma.

 

Terceiro mundo é o das impressões ou das qualidades sensíveis.

Uma vez experimentada (uma qualidade sensível), a qualidade não aparece mais como uma propriedade do objeto que a possui no momento, mas comosigno de um objeto completamente diferente, que devemos tentar decifrar através de um esforço sempre sujeito a fracasso”.

 

Pg. 12

São signos verídicos, signos materiais.

 

Pg.13

Mundo das Artes é o último mundo dos signos, e esses signos, ... como que desmaterializados, encontram seu sentido numa essência ideal.

 

Mas sem a Arte nunca poderíamos compreendê-los, (signos sensíveis)... Todos os signos convertem para a Arte, todos os aprendizados, pelas mais diversas vias, são aprendizados inconscientes da própria Arte. No nível mais profundo, o essencial está nos signos da Arte.

 

 

CAPÍTULO II – Signo e Verdade

 

Pg. 14

Nós procuramos a verdade quando estamos determinados a fazê-lo em função de uma situação concreta, quando sofremos uma espécie de violência que nos leva a essa busca”.

 

Pg.15

“ O erro da Filosofia é pressupor em nós uma boa vontade de pessoas, um desejo, um amor natural pela verdade.”

“ As idéias da inteligência valem por sua significação explícita, portanto convencional.”

... somente é profundo o sentido, tal como aparece encoberto e implícito num signo exterior.

Método  x  Proust  >>>   a pressão da “coação” e “acaso” dos encontros nos força a pensar.

O signo que é o objeto dos encontros e é ele que exerce sobre nós a violência.

Eu quero a verdade.” ... Ele quer interpretar, decifrar, traduzir, encontrar o sentido do signo.

 

Pg.16

Verdade sempre uma verdade do tempo.

Tempo é plural. 4 estruturas.

Tempo que se perde (mundano); tempo que se redescobre (qualidade sensíveis); tempo perdido (amor); tempo redescoberto (Arte) imagem da eternidade.

Tempo original absoluto, verdadeira eternidade que se afirma na Arte. (pg. 23)

Para cada espécie de signo há uma linha de tempo privilegiado que lhe corresponde, em que o pluralismo multiplica as combinações.

Pg. 20

“ A revelação final de queverdades a serem descobertas nesse tempo que se perde é o resultado essencial do aprendizado.”

... Ora, um ser medíocre ou mesmo um estúpido, desde que o amemos, é mais rico em signos do que o espírito mais profundo, mais inteligente.” Produz signos que devem ser decifrados.’

 

Pg. 21

Nunca se sabe como uma pessoa aprende; mas, de qualquer forma que aprenda, é sempre por intermédio de signos, perdendo tempo, e não pela assimilação de conteúdos objetivos.”

Nunca se aprende fazendo como alguém, mas fazendo com alguém, que não tem relação de semelhança com o que se aprende.’

Mas perder tempo não é o suficiente. Como vamos extrair as verdades do tempo que se perde, e mesmo as verdades do tempo perdido? Por que Proust chama estas verdades de “verdades da inteligência”? De fato, elas se opõem às verdades que a inteligência descobre quando trabalha de boa vontade, põe-se em ação e recusa-se a perder tempo.” ... falta-lhes “necessidade

 

Pg. 22

Em Proust, o pensamento geralmente aparece sob várias formas: memória, desejo, imaginação, inteligência, faculdade das essências... Mas, no caso do tempo que se perde e do tempo perdido, é a inteligência, e apenas ela, é capaz de tornar possível o esforço do pensamento, ou de interpretar o signo; é ela que o encontra, contanto que venha “depois”.”

“ as idéias da inteligência são muitas vezes “sucedâneas” do desgosto. A dor força a inteligência a pesquisar.”

 

Pg. 23

“ A cada espécie de signo corresponde, sem dúvida, um linha de tempo privilegiada. Os signos mundanos implicam principalmente um tempo que se perde; os signos do amor envolvem particularmente o tempo perdido. Os signos sensíveis muitas vezes nos fazem redescobrir o tempo, restituindo-o no meio do tempo perdido. Finalmente, os signos da arte nos trazem um tempo redescoberto, tempo original absoluto que compreende todos os outros.”

... “ os mundos de signos, os círculos da Recherche, se desdobram, então, segundo linhas do tempo, verdadeiras linhas de aprendizado; mas, nessas linhas, eles interferem uns nos outros, reagem uns sobre os outros. Sem se corresponderem ou  simbolizarem, sem se entrecruzarem, sem entrarem em combinações complexas que constituem o sistema da verdade, os signos não se desenvolvem, não se explicam, peças linhas do tempo.”

 

 

CAPÍTULO III – O Aprendizado

 

Pg. 25

A obra de Proust é voltada para o futuro e para os progressos do aprendizado.

Idéia fundamental “ de que o tempo forma diversas séries e comporta mais dimensões do que o espaço: o que é ganho em uma não  é ganho na outra.”

Ser sensível aos signos, considerar o  mundo como coisa a ser decifrada é, sem dúvida, um dom. (capacidades, habilidades e potência) Mas esse dom correria o risco de permanecer oculto em nós mesmos se não tivéssemos os encontros necessários; e esses encontros ficariam sem efeito se não conseguíssemos vencer certas crenças.”

1ª crença: atribui ao objeto os signos de que é portador. (objetivismo) “ Pensamos que o próprioobjeto” traz o segredo do signo que emite e sobre ele nos fixamos. Dele nos ocupamos para decifrar o signo.”

Cada uma de nossas impressões tem dois lados: “Envolta uma parte pelo objeto, prolongada em nós a outra, de nós conhecida.” Cada signo tem duas metades: designa um objeto e significa alguma coisa diferente.”

 

Pg. 27

“ O “objetivismo” não poupa nenhuma espécie de signo.” ... “ É, ainda, a direção do prazer e da atividade prática, que se baseiam na posse das coisas ou na consumação dos objetos.”

A inteligência deseja a objetividade, como a percepção o objeto.”

 

Pg. 28

“ ao mesmo tempo que a percepção se dedica a apreender o objeto sensível, a inteligência se dedica a apreender as significações objetivas. Pois a percepção acredita que a realidade deva ser vista, observada, mas a inteligência acredita que a verdade deva ser dita e formulada.

 

... “ ao duo tradicional da amizade e filosofia Proust oporá um duo mais obscuro formado pelo amor e a arte.”

 

Pg.29

Um amor medíocre vale mais do que uma grande amizade: porque o amor é rico em signos e se nutre de interpretação silenciosa. Uma obra de arte vale mais do que uma obra filosófica, porque o que está envolvido no signo é mais profundo que todas as significações explícitas; o que nos violenta é mais rico do que todos os frutos de nossa boa vontade ou de nosso trabalho aplicado; e mais importante do que o pensamento é “aquilo que nos faz pensar”.” (grifo meu)

 

Pg. 30/31

São célebres os ódios de Proust:

contra Sainte-Beuve, para quem a descoberta da verdade não se separa de uma “conversa, de um método de colóquio, pelo qual se pretende extrair a verdade dos dados mais arbitrários, a começar pelas confidências daqueles que pretendem ter conhecido bem alguém;

contra os Goncourt, que decompõem um personagem ou um objeto, examinam-no, analisam sua arquitetura, refazem suas linhas e projeções para delas tirar verdades exóticas (os Goncourt também acreditavam no prestígio da conversação);

contra a arte realista ou popular que acredita nos valores inteligíveis, nas significações bem definidas e nos grandes temas. É preciso julgar os métodos pelos seus resultados: por exemplo, as coisas lastimáveis que Sainte-Beuve escreveu sobre Balzac, Stendhal ou Baudelaire. O que podem os Goncourt entender a respeito do casal Venturin ou de Cottard? Nada, se nos ativermos ao pastiche (escrito) da Recherche. Eles relatam e analisam o que foi expressamente dito, mas passam ao largo dos signos mais evidentes, signo da burrice de Cottard, mímica e símbolos grotescos da Sra. Verdurin. A arte popular e proletária se caracteriza por considerar os operários uns imbecis.

É decepcionante, por natureza, uma literatura que interpreta os signos relacionando-os com objetos designáveis (observação e descrição), que se cerca de garantias pseudo-objetivas do testemunho e da comunicação (conversa, pesquisa), que confunde o sentido com significações inteligíveis, explícitas e formuladas (grandes temas).”

 

Pg. 34

Cada linha de aprendizado passa por esses dois momentos: a decepção provocada por uma tentativa de interpretação objetiva e a tentativa de remediar essa decepção por uma interpretação subjetiva, em que reconstruímos conjuntos associativos.”

... “ O sentido do signo é sem dúvida mais profundo do que o sujeito que o interpreta, mas se liga a esse sujeito, se encarna pela metade em uma série de associações subjetivas.”

 

Pg. 35

... “ o que existe além do objeto e do sujeito?”

... é um mundo, um meio espiritual povoado de essências.” (alógicas ou supralógicas)

Além dos objetos designados, além das verdades inteligíveis e formuladas, além das cadeias de associação subjetivas e ressurreições por semelhança ou contigüidade, há as essências, que alógicas ou supralógicas. Elas ultrapassam tanto os estados da subjetividade quanto as propriedades do objeto. É a essência que constitui a verdadeira unidade do signo e do sentido; é ela que constitui o signo como irredutível ao objeto que o emite; é ela que constitui o sentido como irredutível ao sujeito que o apreende. Ela é a última palavra do aprendizado ou a revelação final.” (grifo meu)

 

Pg. 36

“ Os signos mundanos, os signos amorosos e mesmo os signos sensíveis são incapazes de nos revelar a essência: eles nos aproximam dela, mas nós sempre caímos na armadilha do objeto, nas malhas da subjetividade. É apenas no nível da arte que as essências são reveladas.”

 

 

CAPÍTULO IV – Os Signos da Arte e a Essência

 

Pg. 37

Qual é a superioridade dos dignos da Arte com relação a todos os outros? É que todos os outros são signos materiais.”

 

Pg.38

... são materiais, não apenas por sua origem e pela maneira com aparecem semi-encobertos no objeto, mas também por seu desenvolvimento ou suaexplicação”.

... cada vez que intervém a memória, a explicação dos signos comporta ainda alguma coisa de material.

... a Arte nos dá a verdadeira unidade: unidade de um signo imaterial e de um sentido inteiramente espiritual. A essência é exatamente essa unidade do signo e do sentido, tal qual é revelada na obra de arte.

Pg. 39

“ O que é uma essência, tal qual é revelada na obra de arte? É uma diferença, a Diferença última e absoluta. É ela que constitui o ser, que nos faz concebê-lo.”

... “ela é alguma coisa em um sujeito...: diferença interna, diferença qualitativa decorrente da maneira pela qual encaramos o mundo” ...

 

Pg.40

cada sujeito exprime o mundo de um certo ponto de vista. Mas o ponto de vista é a própria diferença, a diferença interna e absoluta. Cada sujeito exprime, pois, um mundo absolutamente diferente e, sem dúvida, o mundo expresso não existe fora do sujeito que o exprime (o que chamamos de mundo exterior é apenas uma projeção ilusória, o limite uniformizante de todos esses mundos expressos).”

 

Pg. 41

Não é o sujeito que explica a essência, é, antes, a essência que se implica, se envolve, se enrola no sujeito. Mais ainda: enrolando-se sobre si mesma ela constitui a subjetividade. Não são os indivíduos que constituem o mundo, mas os mundos envolvidos, as essências, que constituem os indivíduos: “Esses mundos que são os indivíduos e que sem a arte jamais conheceríamos”. A essência não é apenas individual, é individualizante.”

“ Esta distinção entre essência e sujeito é tão importante que Proust nela a única prova possível da imortalidade da alma.”

 

Pg. 44

Como a essência se encarna em uma obra de arte? Ou, o que vem a dar no mesmo, como um sujeito-artista consegue “comunicar” a essência que o individualiza e o torna eterno? Ela se encarna nas matérias.”

 

Pg. 45

“A arte é uma verdadeira transmutação da matéria. Nela a matéria se espiritualiza, os meios físicos se desmaterializam, para refratar a essência, isto é, a qualidade de um mundo original. Esse tratamento da matéria é o “estilo”.”

“... a essência jamais se confunde com um objeto; ao contrário, ela aproxima dois objetos inteiramente diferentes, que deixam perceber a qualidade no meio revelador.”

 

Pg. 46

“ Uma essência é sempre um nascimento do mundo; mas o estilo é esse nascimento continuado e refratado, esse nascimento redescoberto nas matérias adequadas às essências, esse nascimento como metamorfose de objetos. O estilo não é o homem: é a própria essência.”

 

Pg. 47

“ A arte possui um privilégio absoluto, que se exprime de várias maneiras. Na arte, a matéria se torna espiritualizada e os meios desmaterializados. A obra de arte é, pois, um mundo de signos imateriais e nada têm de opaco, pelo menos para olho ou ouvido artistas. Em segundo lugar, o sentido desses signos é uma essência que se afirma em toda a sua potência. Em terceiro lugar, o signo e o sentido, a essência e a matéria transmutada se confundem ou se unem numa adequação perfeita. Identidade de um signo como estilo: esta é a característica da própria obra de arte.

 

 

ESQUIZOANÁLISE DO CURRÍCULO

Clermont Gauthier

In Educação & Realidade. UFRGS. Vol. 27(2) jul/dez. 2002. P. 146

 

Pg. 144

“ A essa primeira concepção de um objeto (é “issoou ele não é “isso”) podemos opor uma segunda. Em vez de pensar em termos de gênero e de espécie, inverteríamos essa concepção e provocaríamos uma explosão do objeto, ao concebê-lo como uma multiplicidade de agenciamentos possíveis. (grifo meu) Trocaríamos, assim, as competências pelas performances. Nesse caso, entretanto, não falaríamos mais de currículo, mas de agenciamentos curriculares. A forma, feita de contornos bem delimitados, cederia lugar aos diversos agenciamentos do objeto. Do objeto ou do ser do currículo passaríamos a um devir-x do currículo. A questão não seria mais a de saber se esse ou aquele problema está dentro do domínio do currículo ou não, mas, antes, de experimentar no currículo, de experimentar com o currículo, de fazê-lo entrar em novos agenciamentos, sem procurar conformá-lo a uma definição prévia. O novo agenciamento assim obtido não passaria de mais uma parte, de mais um rizoma.”

 

  Nenhum artista se preocupa em conformar seu trabalho a essa supostatotalidadeque seria a arte. O artista simplesmente continua a produzir suas obras sem pensar se vai esgotar a definição de arte ou sem pensar em defini-la clara e distintamente. Ao contrário, na maioria dos casos, seu trabalho consiste em romper com a definição que dela se tinha.”

 

Pg. 145

Várias concepções de currículo

Tanner e Tanner – após haverem feito um inventário das muitas definições, denunciam-nas como sendo parciais e propõem .... que essa definição completa do currículo estaria num “justo ponto intermediário”... o ser-do-currículo é a média.

McDonald – afirmou que uma definição universalmente seria necessária, indicando a sua...

Goulet – definição verdadeira de currículo aquela que é enunciada pela maioria dos autores.

Zais – as definições se eqüivalem e que deveríamos utilizá-las de acordo com o contexto.

Schwab – sugeriu que deixássemos de lado os debates fúteis sobre as questões de definição e que nos ocupássemos dos problemas concretos: posição astuciosa que, ao mesmo tempo que procura fugir à questão, acaba, indiretamente, respondendo a ela.

 


Pg. 146

“ Espinoza abordou a definição do objeto (ou do corpo, o que é a mesma coisa) de uma maneira bastante original. Em vez de tentar buscar a sua essência, ele se perguntou: o que pode um corpo? De que ele é capaz? Espinoza definiu a natureza ou o real como sendo uma substância única, mas com uma infinidade de atributos.”

Um corpo não é, pois, senão um certo modo de existência, senão uma certa maneira de afetar a substância.”

Ele está cheio de devires potenciais.”

“ Ao currículo como corpo, nós opomos uma concepção do currículo como superfície; ao currículo como ser, nós opomos uma concepção do currículo como devir; ao currículo como objeto claro e distinto, nós opomos uma concepção do currículo comoobra aberta”, isto é, como obra fundamentalmente ambígua sem, contudo, cair no indiferenciado; a um plano teleológico (Houaiss - que relaciona um fato com sua causa final), nós opomos um plano geométrico.”

“ O currículo como plano geométrico não tem natureza fixa, ele não é obrigado a ter objetivos, atividades de aprendizagem, etc. ele até pode ter essas coisas, mas elas se tornam acessórias. O que importa é que ele pode ter atributos, ter componentes, entrar em agenciamentos variados.”

 

Pg. 147

“ O inconsciente psicanalítico é para o inconsciente maquínico aquilo que o currículo como totalidade é para o currículo como máquina.”

“... o inconsciente tem sido de duas maneiras: ou com o triangulação edipiana ou como agenciamento maquínico.”

Como triangulação edipiana, o inconsciente é uma estrutura, um mecanismo ( isto é, um sistema de ligações entre termos dependentes). Esse mecanismo se articula em torno de três termospai, mãe e filho -  e de dois processos fundamentais – a identificação da criança com a pessoa adulta e seu impulso amoroso para com ela.”

“ O inconsciente psicanalítico é, pois, inicialmente, um inconsciente familial e está duplamente estruturado na falta.”

Por máquina entendemos um conjunto de “vizinhançaentre termos heterogêneos independentes. O que isso quer dizer? Isso significa conceber o inconsciente não como um desenho figurativo que representa a família, mas como uma pintura moderna, um desenho puramente abstrato, no qual pode haver, obviamente, componentes familiais, mas também outras coisas.”

 

Pg. 148

“ E o currículo nisso tudo? A Literatura sobre currículo tem procurado, constantemente delimitar o contorno dessa disciplina, fixar-lhe uma essência, uma identidade.”

“... É possível, entretanto, contrariamente, conceber o currículo como Deleuze e Guatari concebem o inconsciente: como máquina. Máquina que não para de produzir, máquina produzida por sua produção. Máquina que não se pode definir a priori. E mesmo que o façamos a posteriori, nem por isso ela pára de efetuar novas ligações, nem por isso ela se torna fixa.”

 

Pg. 149

“ Podemos imaginar melhor agora a relação disso com a análise do programa escolar. As grades de análise do programa impedem a produção de programas diferentes, obrigam os programas a se moldar a uma forma particular e totalizante. Essas grades exercem o papel de uma totalidade, relativamente à qual os programas existentes estão em falta, exatamente da mesma forma que os enunciados de um psicanalizado estão em falta quando comparados à grade edipiana. Tudo se passa como se houvesse uma imagem de programa que exercesse o papel de norma e em virtude da qual todos os programas deveriam ser comparados, exatamente da mesma forma que, ao nível do inconsciente.

 


Pg. 150

Dupla tarefa da esquizoanálise do currículo:

- destruição, desfazer os conjuntos unificadores: a criança é isso. A escola é aquilo, aprende-se dessa forma. A sociedade é isso.

- imaginar, frente ao que parecia antecipadamente amarrado, índices de desterritorialização e linhas de fuga.

 

 

 


Hack Catapan, Araci. TERTIUM: o novo modo do ser, do saber e do apreender. Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2001.

 

Tese foi julgada aprovada para obtenção do título de doutora em Engenharia de Produção no Programa de Pós-graduação em Engenharia de Produção da Universidade Federal de Santa Catarina.

 

 

Pg. 15

São dois modos de individuação, dois modos de temporalidade muito diferentes. De um lado, Cronos, “o tempo da medida, que fixa as coisas e as pessoas, desenvolve uma forma e determina um sujeito. Cronos é o tempo que reina no pólo paranóico: é o tempo do relógio, do calendário, do

compromisso; é o tempo da memória, que faz história. O outro tempo, o outro modo de temporalidade é Aion, “o tempo do acontecimento puro e do devir”, “a linha flutuante que conhece velocidades ...”. Entrar em Aion é “cessar de ser sujeitos para devir acontecimentos”.”

Deleuze & Guattari

 

Pg. 14

Acontecimento: é o processo dinâmico que atualiza a Idéia e se dá por uma ampla diferenciação das espécies, das partes e dos caracteres, supondo dinamismo espaciotemporal.”

 

Pg. 23

“ Acredita-se que se há algo de novo a ser engendrado nesse espaço é a possibilidade de se desenvolver conceitualmente uma idéia de currículo topológico, que comporte o modo transversal do saber. Dito de outro modo, compreender o espaço do saber transversal no sentido interacional, cooperativo, compartilhado, seja a partir do conceito mais avançado, seja do saber cotidiano, sem entretanto estar limitado a uma organização estrutural hierarquizada. Construir um espaço de conhecimento processual, em que sujeitos e objetos interajam, implicando-se e autodeterminando-se transversalmente. Nessa concepção o currículo não se limita a uma grade de disciplinas e conteúdos, mas a uma rede de significados, de concepções, de conceitos, de valores, de saberes, que se interconectam, engendrando novos conhecimentos. Para isso, é preciso admitir que o saber transversal impregna todas as situações de aprendizagem trabalhadas. O sentido do saber transversal

atravessa, interpela, mistura, confronta inferências, as mais variadas. Em outras palavras, dir-se-ia que se trata de uma necessidade emergente de superar a pedagogia das disciplinas e dos conteúdos pela pedagogia do conceito (Deleuze & Guattari, 1997).”

 

Pg. 24

“ O processo de conhecimento é encarado como um processo dinâmico que evolui pela intensidade do acontecimento entre Idéia e Conceito, sem no entanto limitar-se a finalidades preestabelecidas.”

 

Pg. 26

Idéia: unidade visível na multiplicidade, tem caráter privilegiado em relação a multiplicidade, pelo que é freqüentemente considerada a essência ou a substância do que é multíplice. Esse é o ponto de vista de Platão, Aristóteles e Kant (Abbagnano, 1998). Em Deleuze (1988:332) a Idéia contém todas as variedades de relações diferenciais e todas as distribuições de ponto singulares coexistindo nas diversas ordens e 'perplicadas' umas nas outras. Idéia é o virtual que se atualiza pela diferenciação. Idéia e virtual são completamente determinados (332).”

Conceito: conceito é ato de pensamento operando à velocidade infinita (...) é absoluto e relativo, define-se pela sua consistência. Não tem referência: ele é auto-referente, põe-se a si mesmo e põe o seu objeto, ao mesmo tempo que é criado, porém não confere às condições de verdade (Deleuze & Guattari, 1997).”

 

 

Pg. 27

“ Deleuze & Guattari (1997) analisam o Conceito a partir de três fases ou de três idades. As idades do Conceito são a da enciclopédia, a da pedagogia e a da formação profissional comercial. A idade da enciclopédia refere-se à fase da filosofia pós-kantiana, que gira em torno de conceitos universais e remete à pura subjetividade. A idade da pedagogia do conceito de que tratam os autores propõe construir conceitos a partir da análise das condições de criação como fatores de momentos que permanecem singulares. A pedagogia do Conceito toma como ponto singular a relação entre o Conceito e a Criação: esses elementos se implicam, se remetem um ao outro constantemente, o Conceito entendido como o mundo do possível, que ainda não é real mas não deixa de existir, de ser criado.”

 

Pg. 41

Pois enquanto através dos três planos da filosofia, das artes e das ciências pode-se traçar uma secante para varar o caos, a TCD parece traçar um plano de mediação do caos, possibilitando uma jangada para o náufrago no dilúvio de informações. A navegação nesse dilúvio requer cada vez mais um sujeito autônomo, sensível e hábil em selecionar informações, realizar simulações, perceber acontecimentos e reelaborar conceitos.” (sobre as TCD’s ver pg. 53)

 

Pg. 117

Este quadro provoca mudança no processo pedagógico, requerendo alteração na forma como os cursos atualmente são organizados e como as disciplinas são ministradas. A estrutura atual não considera a possibilidade da dinâmica e da criação no processo pedagógico; é estruturada linearmente e de forma fragmentada e hierarquizada. O plano pedagógico emergente pressupõe um tipo de currículo topológico, ou pelo menos que admita a transdisciplinaridade, ou, melhor ainda, a transversalidade.”

“ Nesta proposta o trabalho pedagógico do professor desenvolve-se baseado na necessidade do aluno que tem de aprender, por exemplo, a conceituação física da transferência de calor e por que aquela equação representa um fenômeno físico, simulando o fenômeno físico, alterando suas variáveis, observando os desdobramentos e o sentido não apenas numericamente mas visualmente.”

 

Pg. 146

Um rizoma não começa nem conclui, ele se encontra sempre no meio, entre as coisas inter-ser, intermezzo. A árvore é filiação, mas o rizoma é aliança, unicamente aliança...A árvore impõe o verboser’, mas o rizoma tem como tecido a conjunção ‘e...e...e’ há nesta conjunção força suficiente para sacudir e desenraizar o verbo ser. Para onde vai o sujeito? De onde vem o objeto?

Deleuze & Guattari”

 

Para aprofundamentos: ver páginas 16 – 71; 111 – 121 e 183 a 201.
Entrevista sobre Mille Plateaux

 

Pg. 37

O conceito deve dizer o acontecimento e não mais a essência.

 

Pg. 42

Conceitos com ressonância ou mesmo correspondência científica.

Duas noções: umas exatas por natureza, outras fundamentalmente inexatas (por natureza)

 

Pg. 45

“ O que Guattari e eu chamamos de rizoma é precisamente um caso de sistema aberto.”

 

Um sistema é um conjunto de conceitos. Um sistema é aberto quando os conceitos são relacionados a circunstâncias, e não mais a essências.”

 

“... Mas, por um lado, os conceitos não são dados prontos, eles não preexistem: é preciso inventar, criar os conceitos, e nisso há tanta criação e invenção quanto na arte ou na ciência.”

 

“... Criar novos conceitos que tenham necessidade, sempre foi essa a tarefa da filosofia.”

 

Pg. 46

Em Mille Plateaux tentamos dizer: o bom nunca está garantido (por exemplo, não basta um espaço liso para vencer as estrias e as coerções, nem um corpo sem órgãos para vencer as organizações)

 

Pg. 47

“ O que chamamos de ummapa”, ou mesmo umdiagrama”, é um conjunto de linhas diversas funcionando ao mesmo tempo (as linhas da mão formam um mapa).”

“... Acreditamos que as linhas são os elementos constitutivos das coisas e dos acontecimentos. Por isso cada coisa tem a sua geografia, sua cartografia, seu diagrama.”

“ ... nós definimos a “máquina de guerracomo um agenciamento linear que se constrói sobre linhas de fuga. Nesse sentido, a máquina de guerra não tem por objeto a guerra; ela tem por objeto um espaço muito especial, espaço liso, que ela compõe, ocupa e propaga. O nomadismo é precisamente esta combinação máquina de guerraespaço liso.”

“... Uma máquina de guerra pode ser revolucionária, ou artística, muito mais que guerreira.”

 

Pg. 48

Não se pode dizer que as linhas de fuga sejam forçosamente criadoras; que os espaços lisos sejam melhores que os segmentarizados ou estriados: como mostra Virilio, o submarino nuclear reconstitui um espaço liso a serviço da guerra e do terror. Numa cartografia, pode-se apenas marcar caminhos e movimentos com coeficientes de sorte e de perigo.”

 

 

TRÊS QUESTÕES SOBRE SEIS VEZES DOIS (GODARD)

 

Pg. 59

“ O uso do E em Godard é essencial... todo o nosso pensamento é mais modelado pelo verbo ser, pelo É.”

 

Pg. 60

O “E” é a diversidade, a multiplicidade, a destruição das identidades.

 

SOBRE A IMAGEM-TEMPO

 

Pg. 79

Toda a criação tem um valor e um teor políticos.”

“ O cérebro é a face oculta de todos os circuitos, que podem fazer triunfar os reflexos condicionados mais rudimentares, tanto quanto dar uma oportunidade a traçados mais criativos, a ligações menosprováveis”.” (massa de pão)

 

DÚVIDAS SOBRE O IMAGINÁRIO

 

Pg. 84

“ Será o “imaginárioum bom conceito? Inicialmenteum primeiro par, “real-irreal”. Pode-se defini-lo à maneira de Bergson: o real é a conexão legal, o encadeamento prolongado dos atuais; o irreal é a aparição brusca e descontínua à consciência, é um virtual enquanto se atualiza. Além disso, há um outro par, “verdadeiro-falso”. O real e o irreal são sempre distintos, mas a distinção entre os dois nem sempre é discernível. Porém, precisamente, quandofalso, o verdadeiro por sua vez não é mais decidível. O falso não é um erro ou uma confusão, mas uma potência que torna o verdadeiro indecidível.”

“ O imaginário é uma noção muito complicada, porque está no entrecruzamento dos dois pares. O imaginário não é o irreal, mas a indiscernibilidade entre o real e o irreal.

 

RACHAR AS COISAS, RACHAR AS PALAVRAS

In Libération, 2 e 3 de setembro de 1986, entrevista a Robert Maggiori

 

Pg. 108/109

Deleuze sobre Foucault, Guattari, Schérer e Lyotard

Não possuíamos o gosto pelas abstrações, o Uno, o Todo, a Razão, O Sujeito. Nossa tarefa era analisar estados mistos, agenciamentos, aquilo que Foucault chamava de dispositivos. Era preciso, não remontar aos pontos, mas seguir e desemaranhar as linhas: uma cartografia, que implicava numa microanálise (o que Foucault chamava de microfísica do poder e Guattari, micropolítica do desejo). É nos agenciamentos que encontraríamos focos de unificação, nós de totalização, processos de subjetivação, sempre relativos, a serem sempre desfeitos a fim de seguirmos ainda mais longe uma linha agitada. Não buscaríamos origens mesmo perdidas ou rasuradas, mas pegaríamos as coisas onde elas crescem, pelo meio: rachar as coisas, rachar as palavras. Não buscaríamos o eterno, ainda que fosse a eternidade do tempo, mas a formação do novo, a emergência ou o Foucault chamou de “a atualidade”.

 


OS INTERCESSORES

L’autre journal, no. 8. Outubro de 1985, entrevista a Antoine Dulaure e Claire Parnet

 

Pg. 151

“ Se hoje em dia o pensamento anda mal é porque, sob o nome de modernismo, há um retorno às abstrações, reencontra-se o problema das origens, tudo isso...”

“ O fundamental é como se fazer aceitar pelo movimento de uma grande vaga, de uma coluna de ar ascendente, “chegar entreem vez de ser origem de um esforço.”

 

Pg. 152

“... se as opressões são tão terríveis é porque impedem os movimentos, e não porque ofendem o eterno.” “refletir sobrenão é criar, não é fazer o movimento.

“ Filósofo não é reflexivo, é um criador

Bergson distingue a percepção, afecção e ação como três espécies do movimento.

 

Pg. 154

“ O que me interessa são as relações entre as artes, a ciência e a filosofia. Nãonenhum privilégio de uma destas disciplinas em relação à outra. Cada uma delas é criadora. O verdadeiro objeto da ciência é criar funções, o verdadeiro objeto da arte é criar agregados sensíveis e o objeto da filosofia, criar conceitos.

“... podemos formular a questão dos ecos e ressonâncias entre elas.” (funções, agregados e conceitos)

 

Pg. 155

“ transformação do padeiro” – “ Ao cabo de um certo número de transformações, dois pontos estarão fatalmente em duas metades opostas, por mais próximos que tenham estado no quadrado original.”

 

Pg. 156

Assim, a filosofia, a arte e a ciência entram em relações de ressonância mútua e em relações de troca, mas a cada vez por razões intrínsecas.”

“... é preciso considerar a filosofia, a arte e a ciência como espécies de linhas melódicas estrangeiras umas às outras e que não cessam de interferir entre si.”

“ O essencial são os intercessores. A criação são os intercessores. Sem eles nãoobra. Podem ser pessoas... mas também coisas, plantas, até animais, como em Castanheda.”

Eu preciso de meus intercessores para me exprimir, e eles jamais se exprimiriam sem mim: sempre se trabalha em vários, mesmo quando isto não se .”

 

Pg. 157

“ Essa idéia de que a verdade não é algo preexistente, a ser descoberto, mas que deve ser criada em cada domínio, é evidente nas ciências, por exemplo.”

 

Pg. 158

“ Creio que as pessoas de direita não têm ilusões, elas não são mais bobas que outras, mas sua técnica é opor-se ao movimento. (grifo meu)

“ A questão não é tanto convencer, mas ser claro. Serclaro” é impor os “dadosnão de uma situação, mas de um problema.”

 

Pg. 159

Então o papel da esquerda, esteja ou não no poder, é descobrir um tipo de problema que a direita quer esconder a todo custo.”

 

Pg. 160

A crise da Literatura de best-sellers.

“ Os Beckett ou os Kafka do futuro, que justamente não se assemelham nem a Beckett nem a Kafka, correm o risco de não encontrar editor, sem que ninguém o perceba por definição. Como diz Lindin, “não se nota a ausência de um desconhecido.”

 

Pg. 162

“ Do que se morre atualmente não é de interferências, mas de proposições que não têm o menor interesse. ora, o que chamamos de sentido de uma proposição é o interesse que ela apresenta, não existe outra definição para o sentido. Ele eqüivale exatamente à novidade de uma proposição. Podemos escutar as pessoas durante horas: sem interesse... Por isso é tão difícil discutir, por isso não cabe discutir nunca. Não se vai dizer a alguém: “o que você diz não tem o menor interesse”. Pode-se dizer: “está errado”. Mas o que alguém diz nunca está errado, não é que esteja errado, é que é bobagem ou não tem importância alguma.” ... “ As noções de importância, necessidade, de interesse são mil vezes mais determinantes que a noção de verdade.”

 

Pg. 164

“ As possibilidades de criação podem ser muito diferentes segundo o modo de expressão considerado, nem por isso deixam de comunicar entre si, na medida em que todas juntas devem opor-se à instauração de um espaço cultural de mercado e de conformidade, isto é, de “produção para o mercado”.

 

mutações qualitativas ou das idéias, que são questão de estilo...”

Todo novo estilo implica não umgolpenovo, mas um encadeamento de posturas, isto é, um equivalente de sintaxe, que se faz com base num estilo precedente e em ruptura com ele.”

 

Pg. 167

“ Se um criador não é agarrado pelo pescoço por um conjunto de impossibilidades, não é um criador. Um criador é alguém que cria suas próprias impossibilidades, e ao mesmo tempo cria um possível.”

“ O estilo, então, tem necessidade de muito silêncio e trabalho para produzir um turbilhão no mesmo lugar, depois, lança-se como um fósforo que as crianças vão seguindo na água da sargeta. Pois certamente não é compondo palavras, combinando frases, utilizando idéias que se faz um estilo. É preciso abrir as palavras, rachar as coisas, para que se liberem vetores que são os da Terra. Todo escritor, todo criador é uma sombra.”

 

SOBRE A FILOSOFIA

Magazine Littéraire, no. 257, setembro de 1988, entrevista a Raymond Bellour e François Ewald

 

Pg. 170

A filosofia não é comunicativa, assim como não é contemplativa nem reflexiva: ela é, por natureza, criadora ou mesmo revolucionária, uma vez que não pára de criar novos conceitos. A única condição é que eles tenham uma necessidade, mas também uma estranheza, e eles as têm na medida em que respondem a verdadeiros problemas. O conceito é o que impede que o pensamento seja uma simples opinião, um conselho, uma discussão, uma tagarelice.”

 

Pg. 171

“ Os perceptos não são percepções, são pacotes de sensações e de relações que sobrevivem àqueles que os vivenciam. Os afectos não são sentimentos, são devires que transbordam aquele que passa por eles (tornando-se outro).”

“... O afecto, o percepto e o conceito são três potências inseparáveis, potências que vão da arte à filosofia e vice-versa.”

Pg. 175

“ O estilo em filosofia é o movimento do conceito. Certamente, este não existe fora das frases, mas as frases não têm outro objetivo que não o dar-lhe vida, uma vida independente.”

 

Pg. 176

“ O estilo é uma variação da língua, uma modulação, e uma tensão de toda a linguagem em direção a um fora.”

 

Pg. 180

“ O anti-Édipo é uma ruptura que se faz por si , a partir de dois temas: o inconsciente não é um teatro mas uma fábrica, uma máquina de produzir; o inconsciente não delira sobre papai e mamãe, ele delira sobre as raças, as tribos, os continentes, a história e a Geografia, sempre um campo saciável. Buscávamos uma concepção imanente, uma utilização imanente das sínteses do inconsciente, um produtivismo ou construtivismo do inconsciente. Então nos apercebíamos que a psicanálise jamais havia compreendido o que queria dizer um artigo indefinido (uma criança...), um devir (os devires-animal, as relações com o animal), um desejo, um enunciado. Nosso último texto sobre a psicanálise é a propósito do Homem dos lobos, em Mille Plateaux: como ela é incapaz de pensar o plural ou o múltiplo, uma matilha e não um lobo, um ossário e não um único osso.”

 

Pg. 182

“ O abstrato nada explica, devendo ele próprio ser explicado: nãouniversais, nada de transcendentes, de Uno, de sujeito (nem de objeto), de Razão, há somente processos, que podem ser de unificação, de subjetivação, de racionalização, mas nada mais. Esses processos operam “multiplicidades” concretas, sendo a multiplicidade o verdadeiro elemento onde algo se passa. São as multiplicidades que povoam o campo de imanência, um pouco como as tribos povoando o deserto sem que este deixe de ser um deserto. E o plano de imanência deve ser construído; a imanência é um construtivismo e cada multiplicidade assinalável é como uma região do plano. Todos os processos se produzem sobre o plano de imanência e numa multiplicidade assinalável: as unificações, subjetivações, racionalizações, centralizações não têm qualquer privilégio, sendo freqüentemente impasses ou clausura que impedem o crescimento da multiplicidade, o prolongamento e o desenvolvimento de suas linhas, a produção do novo.”

Quando se invoca uma transcendência, interrompe-se o movimento, para introduzir uma interpretação em vez de experimentar.”

 

Pg. 184

Criar conceitos é construir uma região do plano, juntar uma região às precedentes, explorar uma nova região, preencher a falta. O conceito é um composto, um consolidado de linhas, de curvas. Se os conceitos devem renovar-se constantemente, é justamente por que o plano de imanência se constrói por região, havendo uma construção local, de próximo em próximo.”

“ O que para mim substitui a reflexão é o construcionismo. E o que substitui a comunicação é uma espécie de expressionismo.”

“... Creio ter encontrado um conceito de Outrem ao defini-lo como não sendo nem um objeto nem um sujeito (um outro sujeito), mas como sendo a expressão de um mundo possível.

Mesmo dessa maneira muito sumária, a inclusão dos mundos possíveis no plano de imanência faz do expressionismo o complemento do construtivismo.”

 

CARTA A RÉDA BENSMÏA, SOBRE ESPINOZA

Lendemains, no. 53, 1989

 

“ ... o conceito não se move apenas em si mesmo (compreensão filosófica), mas também nas coisas e em nós: ele nos inspira novos perceptos e novos afectos, que constituem a compreensão não filosófica da própria filosofia. E a filosofia precisa de compreensão não filosófica tanto quanto de compreensão filosófica.”

“ O estilo em filosofia tende para esses três pólos: o conceito ou novas maneiras de pensar, o percepto ou novas maneiras de ver e ouvir, o afecto ou novas maneiras de sentir. É a trindade filosófica, a filosofia como ópera: os três são necessários para produzir o movimento.”

 

 

CONTROLE E DEVIR

Futur Antérieur, nº1, primavera de 1990, entrevista a Toni Negri. (sobre Antonio Negri, autor de O Império estudamos sobre professor militante e professor profeta)

 

Pg. 210

            O que a história capta do acontecimento é sua efetuação em estados de coisa, mas o acontecimento em seu devir escapa à história. A história não é a experimentação, ela é apenas o conjunto das condições quase negativas que possibilitam a experimentação de algo que escapa à história. Sem a história, a experimentação permaneceria indeterminada, incondicionada, mas a experimentação não é histórica.

 

Pg.212

            Mille Plateaux indica muitas direções, sendo estas três principais: primeiro, uma sociedade nos parece definir-se menos por suas contradições que por suas linhas de fuga, ela foge por todos os lados, e é muito interessante tentar acompanhar em tal ou qual momento as linhas de fuga que se delineiam.

            Mas a surpresa pode vir por parte das explosões entre os jovens, as mulheres, em função da simples ampliação dos limites (isto não é “tecnocratizável”).

            Há uma outra direção em Mille Plateaux, que não consiste apenas em considerar as linhas de fuga mais do que as contradições, porém as minorias de preferências às classes. Enfim, uma terceira direção, que consiste em buscar um estatuto para as “máquinas de guerra”, que não seriam definidas de modo algum pela guerra, mas por uma certa maneira de ocupar, de preencher o espaço-tempo, ou de inventar novos espaços-tempos: os movimentos revolucionários (não se leva em conta o suficiente, por exemplo, como a OLP teve que inventar um espaço-tempo no mundo árabe), mas também os movimentos artísticos são máquinas de guerra.

 

Pg.213

            “A vergonha de ser um homem”.

            Vergonha por ter havido homens para serem nazistas, vergonha de Ter feito concessões, é tudo o que o Primo Levi chama de “zona cinza”.

            No capitalismo uma coisa  é universal, o mercado. Não existe Estado universal, justamente porque existe um mercado universal cuja as sedes são os Estados, as Bolsas.

            Os direitos do homem não nos obrigarão a abençoar as “alegrias” do capitalismo liberal do qual eles participam ativamente. NãoEstado democrático que não seja totalmente comprometido nesta fabricação da miséria humana.

            não dispomos da imagem de um proletário a quem bastaria tomar consciência.

 

Pg.214

            Existe um modo para que a massa de singularidades e de átomos, que somos todos, possa se apresentar como poder constituinte, ou, ao contrário, devemos aceitar o paradoxo jurídico segundo o qual o poder constituinte pode ser definido pelo poder constituído?

            - As minorias e as maiorias não se distinguem pelo número. Uma minoria pode ser mais numerosa que uma maioria. O que define a maioria é um  modelo ao qual é preciso estar conforme: por exemplo, o europeu médio adulto macho habitante das cidades...Ao passo que uma minoria não tem modelo, é um devir, um processo. Pode-se dizer que a maioria não é ninguém. Todo mundo, sob um ou outro aspecto, está tomado por um devir minoritário que o arrastaria por caminhos desconhecidos caso consentisse em segui-lo. Quando uma minoria cria para si modelos, é porque quer tornasse majoritária, e sem dúvida isso é inevitável para sua sobrevivência ou salvação (por exemplo, ter um Estado, ser reconhecido, impor seus direitos). Mas sua potência provém do que ela soube criar, e que passará mais ou menos para o modelo, sem dele depender. O povo é sempre uma minoria criadora, e que permanece tal, mesmo quando conquista uma maioria: as duas coisas podem coexistir porque não são vividas no mesmo plano.

           

Pg.215

            Na utopia marxiana dos Grundrisse, o comunismo se configura justamente como uma organização transversal de indivíduos livres, sobre uma base técnica que lhe garante as condições. O comunismo ainda é pensável? Na sociedade da comunicação ele é menos utópico que antes?

            Foucault é com freqüência considerado como o pensador das sociedades de disciplina, e de sua técnica principal, o confinamento (não o hospital e a prisão, mas a escola, a fábrica, a caserna).

 

Pg.216

            Estamos entrando nas sociedades de controle, que funcionam não mais por confinamento, mas por controle contínuo e comunicação instantânea. Burroughs começou a análise da situação. Certamente, não se deixou de falar da prisão, da escola, do hospital: essas instituições estão em crise. Mas se estão em crise, é precisamente em combates de retaguarda. O que está sendo implantado, ás cegas, são novos tipos de sanções, de educação, de tratamento. Os hospitais abertos, o atendimento a domicílio, etc., surgiram há muito tempo. Pode-se prever que a educação será cada vez menos um meio fechado, distinto do meio profissional -, mas que os dois desaparecerão em favor de uma terrível formação permanente, de um controle contínuo se exercendo sobre o operário-aluno ou o executivo-universitário. Tentam nos fazer acreditar numa reforma da escola, quando se trata de uma liquidação.

            A cada tipo de sociedade, evidentemente, pode-se fazer corresponder um tipo de máquina: as máquinas simples ou dinâmicas pra as sociedades de soberania, as máquinas energéticas pra disciplina, as cibernéticas e os computadores parra as sociedades de controle.

            É verdade que, mesmo antes das sociedades de controle terem efetivamente se organizado, as formas de delinqüência ou de resistência (dois casos distintos) também aparecem. Por exemplo, a pirataria ou os vírus de computador, que substituirão as greves e que no século XIX se chamava de “sabotagem” (o tamanco – sabot- emperrando a máquina).

 

 

Pg.217

Você pergunta se as sociedades de controle ou de comunicação não suscitarão formas de resistência capazes de dar nova oportunidade a um comunismo concebido comoorganização transversal de indivíduos livres”. Não sei, talvez. Mas isso não dependeria de as minorias retomarem a palavra. Talvez a fala, a comunicação, estejam apodrecidas. Estão inteiramente penetradas pelo dinheiro: não por acidente, mas por natureza.

           

O importante talvez venha a ser criar vacúolos de não-comunicação, interruptores, para escapar ao controle.

 

Pg.218

            Eles (os acontecimentos) se elevam por um instante, e é este momento que é importante, é a oportunidade que é preciso agarrar.

            Subjetivação, acontecimento ou cérebro, parece-me que é um pouco a mesma coisa. Acreditar no mundo é o que mais nos falta; nós perdemos completamente o mundo, nos desapossaram dele. Acreditar no mundo significa principalmente suscitar acontecimentos, mesmo pequenos, que escapem ao controle, ou engendrar novos espaços-tempos, mesmo de superfície ou volume reduzidos.

            É ao nível de cada tentativa que se avaliam a capacidade de resistência ou, ao contrário, a submissão a um controle. Necessita-se ao mesmo tempo de criação e povo.

 

 

POST-SCRIPTUM

Sobre as sociedades de controle

In L’Autre Journal, nº1, maio de 1990

 

 

Pg.219

 

Foucault situou as sociedades disciplinares nos séculos XVIII e XIX; atingem seu apogeu no início do século XX. Elas procedem à organização dos grandes meios de confinamento.

Mas o que Foucault também sabia era da brevidade deste modelo: ele sucedia às sociedades de soberania cujo objetivos e funções eram completamente diferentes (açambarcar, mais do que organizar a produção, decidir mais sobre a morte do que gerir a vida).

 

Pg.222

“Nas sociedades de controle, ao contrário, o essencial não é mais uma assinatura e nem um número, mas uma cifra: a cifra é uma senha, ao passo que as sociedades disciplinares são reguladas por palavras de ordem (tanto no ponto de vista da integração quanto da resistência). A linguagem numérica do controle é feita de cifras, que marcam o acesso à informação, ou a rejeição.”

 

Pg.223

“O homem da disciplina era um produtor descontínuo de energia, mas o homem do controle é antes ondulatório, funcionando em órbita, num feixe contínuo.”

 

“É fácil fazer corresponder a cada sociedade certos tipos de máquina, não porque as máquinas sejam determinantes, mas porque elas exprimem as formas sociais capazes de lhes darem nascimento e utilizá-las. As antigas sociedades de soberania manejavam máquinas simples, alavancas roldanas, relógios; mas as sociedades disciplinares recentes tinham por equipamento máquinas energéticas, com o perigo passivo da entropia e o perigo ativo da sabotagem; as sociedades de controle operam por máquinas de uma terceira espécie, máquinas de informática e computadores, cujo perigo passivo é a interferência, e, o ativo, a pirataria e a introdução de vírus. Não é uma evolução tecnológica sem ser, mais profundamente, uma mutação do capitalismo.”

 

“... o capitalismo do século XIX é de concentração, para a produção, e de propriedade. Por conseguinte, erige a fábrica como meio de confinamento, o capitalista sendo o proprietário dos meios de produção, mas também eventualmente proprietário de outros espaços concebidos por analogia (a casa familiar do operário, a escola). Quanto ao mercado, é conquistado ora por especialização, ora por colonização, ora por redução dos custos de produção. Mas atualmente o capitalismo não é mais dirigido para a produção, relegada com freqüência à periferia do Terceiro Mundo, mesmo sob as formas complexas de têxtil, da metalurgia ou do petróleo. É um capitalismo de sobre-produção. Não compra mais matéria-prima e não vende produtos acabados: compra produtos acabados, ou monta peças destacadas. O que ele quer vender são serviços, e o que quer comprar são ações. não é um capitalismo dirigido para a produção, mas para o produto, isto é, para a venda ou para o mercado. Por isso ele é essencialmente dispersivo, e a fábrica cedeu lugar à empresa.”

 

Pg.224

“ O controle é de curto prazo e a rotação rápida, mas também contínuo i ilimitado, ao passo que a disciplina era de longa duração, infinita e descontínua. O homem não é mais o homem confinado, mas o homem endividado. É verdade que o capitalismo manteve como constante a extrema miséria de três quartos da humanidade, pobres demais para a dívida, numerosos demais para o confinamento: o controle não terá que enfrentar a dissipação das fronteiras, mas também a explosão dos guetos e favelas.”

 

Pg. 225

“ No regime das prisões: a busca de penas “substitutivas”, ao menos para a pequena delinqüência, e a utilização de coleiras eletrônicas que obrigam o condenado a ficar em casa certas horas. No regime das escolas: as formas de controle contínuo, avaliação contínua, e a ação de formação permanente sobre a escola, o abandono correspondente de qualquer pesquisa na Universidade, a introdução da “empresaem todos os níveis da escolaridade. No regime dos hospitais: a nova medicinasem médico nem doente”, que resgata doentes potenciais q sujeitos à risco, que de modo algum demonstra um progresso em direção á individuação, como se diz, mas substitui o corpo individual ou numérico pela cifra de uma matéria “dividual” a ser controlada. No regime de empresa: as novas maneiras de tratar o dinheiro, os produtos e os homens, que não passam pela antiga forma-fábrica. São exemplos frágeis, mas que permitiriam compreender melhor o que se entende por crise das instituições, isto é, a implantação progressiva e dispersa de um novo regime de dominação.”

 

“ Uma das questões mais importantes diria respeito à inaptidão dos sindicados: ligados, por toda a sua história, à luta contra disciplinas ou nos meios de confinamento, conseguirão adaptar-se ou cederão o lugar a novas formas de resistência contra as sociedades de controle?”

 

 

“Pg. 226

Muitos jovens pedem estranhamente para serem “motivados”, e solicitam novos estágios e formação permanente; cabe a eles descobrir a que estão sendo levados a servir, assim como seus antecessores descobriram, não sem dor, a finalidade das disciplinas.”

 

 

A VIDA COMO OBRA DE ARTE

Le Nouvel Observateur, 23 de agosto de 1986, entrevista a Didier Eribon.

 

Pg. 118

“ A lógica de um pensamento é como um vento que nos impele, uma série de rajadas e de abalos.

 

Pg. 119

“ A história, segundo Foucault, nos cerca e nos delimita; não diz o que somos, mas aquilo de que estamos em vias de diferir; não estabelece nossa identidade, mas a dissipa em proveito do outro que somos.

 

Pensar é, primeiramente, ver e falar, mas com a condição de que o olho não permaneça nas coisas e se eleve até as “visibilidades”, e de que a linguagem não fique nas palavras e frases e se eleve até os enunciados. É o pensamento como arquivo.” (grifo meu) (procurar também por pensar)

 

“... Além disso, pensar é poder, isto é, estender relações de força ... que... não se reduzem à violência, mas constituem ações sobre ações, ou seja atos, tais comoincitar, induzir, desviar, facilitar ou dificultar, ampliar ou limitar, tornar mais ou menos provável...” É o pensamento como estratégia.” (grifo meu)

 

Pg. 120

Pensamento comoprocesso de subjetivação” como constituição de modos de existência ou, como dizia Nietzsche, a invenção de novas possibilidades de vida. A existência